quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

AS PAREDES DO QUARTO








Não havia melhor caderno de desenho que as paredes do seu quarto.


Nele a menina pintava seu céu, seu mar e suas borboletas. Sempre cabia tudo.


E viver cercada de sonhos pelos quatro cantos a fazia dormir em paz, toda noite.



Eram as tatuagens nas paredes brancas de seu quarto, os desenhos que fazia.


Porque ela os deixaria gravados ali, até as paredes ficarem velhinhas, enrugadas,

como sua pele cheia de cicatrizes.


E, mesmo envelhecidas, as paredes sempre teriam aquelas lindas cores e os sonhos pra sempre estampados.


Cada vez que a menina pegava seus pincéis coloridos ela fechava os olhos.


Fechava os olhos e imaginava onde queria estar: mais uma paisagem linda se formava.


Um dia era uma praia com brancas areias no litoral nordestino


Outro, uma montanha alta, linda e cheia de nuvens a abraçando


Certa vez sonhou que estava numa tribo cheia de índios fazendo a dança da chuva


Choveu nas paredes de seu quarto!


Os pingos de chuva vinham acompanhados de alguns poucos trovões


E havia tantas estrelas que perdera a conta: estivera nas mais longínquas constelações


Toda a família estava ali, em momentos diversos:


A irmãzinha no carrinho de bebê vermelho, engatinhando pelo chão e derrubando

os enfeites da mesa da sala


Mamãe e papai arrumando as coisas pro almoço de domingo


Desenhava as amigas queridas ( estas com sorrisos no rosto)

e também as gurias que a chateavam ( viviam carrancudas!)


Os meninos estavam na parede da esquerda, jogando bola no campo do colégio


Ser criança não é fácil não - ela pensava - dar conta de desenhar tanta coisa...


Na escola havia um porteiro grisalho, corcundo , o seu João: lá estava ele, grudado ao lado da porta

( Seu João às vezes faltava na escola, mas estava sempre presente em sua tela )


E a noite chegava, era hora de dormir: mandava beijos pras companheiras joaninhas ( bem do lado de seu travesseiro) e pras andorinhas que voavam pelo teto.


Hora de dormir e sonhar, hora de fazer parte da tela viva de seu quarto.


Um comentário:

Tatiana Kielberman disse...

Que história linda e emocionante!!

Só podia mesmo vir de você, fiquei comovida, Flavinha!

Beijos, querida!